Julgo que a generalidade da população deste país ainda não avaliou bem a questão da privatização da TAP. A generalidade em que eu próprio me gosto de incluir. Nem é esta a privatização que nos será mais prejudicial. As que nos irão, no presente e no futuro próximo, afectar-nos mais, já aconteceram: as energias, os correios, os telefones (hoje, telecomunicações), as águas e os transportes públicos urbanos.

A privatização da TAP não nos afectará no dia-a-dia, salvo no orgulho nacional (ou nacionalista) o que não é a mesma coisa. Já a privatização das coisas nossas quotidianas, que não devem ser aplicações de lucro, mas de solidariedade, essas sim deveriam continuar, ou voltar, ao controlo da rés pública. Mas, segundo opiniões que se vão escutando um pouco por toda a parte, os serviços públicos, porque o são, não existem para produzir lucro, daí os gestores, que só pensam nisso, que apenas sabem trabalhar com isso, e só disso colhem o dizerem-se honestos, recusam ser tudo isso quando gerem para a rés pública, transformando-se nos melhores do mundo, quando o mundo, não o nosso, mas o deles, é privado. Utentes do "metro", alguns, já vão admitindo o benefício da concessão a privados dum serviço público. Descontentamento por via das greves, pese embora a incoerência da situação: privatização do público.

Todavia a privatização da TAP, embora companhia de bandeira, e, por sinal, de bandeira nacional, não é, do ponto de vista de serviço público, tão grave quanto as outras privatizações já referidas, salvo para a Madeira e os Açores. Há, no entanto, uma curiosidade assombrosa no desenlace do concurso e da entidade vencedora do mesmo. Vencedora do concurso, uma vez que, à data da escritura deste artigo, ainda não está dona, de papel assinado e visado por todos quantos têm de aprovar o negócio, da companhia aérea portuguesa. Mas pouco faltará. Ora a curiosidade assombrosa tem a ver com o que pode ser um estratagema sublime de negociar. Ao longo do processo foi-se ouvindo, um pouco por toda a parte, que a TAP não está tão mal quanto o querem uns fazer crer nem tão bem quanto os outros quereriam. Contudo, uns e outros são unânimes em afirmar que o grande busílis da TAP é uma companhia de manutenção de aviões que a infeliz comprou no Brasil.  Que o negócio não foi lá muito bom e, "mais mau" ainda, piorou com os anos. Todos sabem que no Brasil não há vinho do Porto, a única coisa que melhora com a idade. Essa companhia de manutenção de aviões será o calcanhar de Aquiles da nossa TAP. Mas também é conhecido o maior cliente dessa oficina: nada mais, nada menos do que a companhia de aviação, ou companhias de aviação, de que é proprietário o próximo (?) dono da TAP, pese embora a sociedade que teve de fazer com um português por via das leis (?) da EU. Já se está a desenhar o filme. É razoável supor que o melhor cliente de qualquer oficina possa também ser o seu maior devedor. 

Ora eu, um qualquer de nós, que tenha um ou vários carrinhos, vai à oficina do stand sempre que precisa de manutenção, revisões e assistência e não paga. Mas como é um "bom" cliente o mecânico repara. E assim sucessivamente. Um dia o stand, que até está bem como stand, mas tem um podre na oficina, vê-se obrigado a pôr escritos nas montras. Logo eu, ou um qualquer de nós, que tenha um ou vários carrinhos, vê os escritos, paga a sua dívida na oficina… mas com a condição de ficar com o stand!

A isto é que se pode chamar Tap´s à moda de Lisboa.