Seria de bom-tom começar esta crónica pela selfie do Durão Barroso. Não uma selfie realmente selfie, uma vez que não tem imagem. É, contudo, uma verdadeira selfie, conquanto apenas áudio. A versão vídeo tê-la-á deixado ao critério de cada um. Quando o ex primeiro ministro fujão de Portugal, e ex presidente da comissão europeia, de que já não se fala, porque não deixou rasto, quer dizer, que não deixou obra, apoda de palhaços sabe-se lá quais políticos da Europa, sabendo nós que Portugal ainda faz parte da Europa, será fácil adivinhar quantos, entre os muitos outros, poderemos imaginar no rol do circo de Durão Barroso. Podemos começar por um, em vias de extinção, que se zangou não sei se por o chamarem de palhaço se por o aconselharem a ir trabalhar. Todavia, e daí a designação de selfie à declaração de Barroso, se houve político palhaço na Europa… Houve um, realmente, a começar pela palhaçada nos Açores, ainda o tal não era político da Europa, mas já gostava de palhaçar pelas ilhas ao sabor do rock de W.C. Busch.
O motivo porque ele, agora, clama que há políticos palhaços na Europa, tem a ver, não tão remotamente conquanto isso, com a palhaçada de que ele foi cicerone, com rolo de papel higiénico num braço e guardanapo no outro, uma vez que não teve outra qualquer intervenção no assunto, salvo a subserviência, numa das ilha açorianas. Aí é que foi decidido o mexer no ninho de vespas donde resultou a crise actual no Médio Oriente. Quem já teve de lidar com ninhos de vespas sabe que não é de qualquer maneira que se domina o enxame. É preciso tacto e estratégia, virtudes que não teve a palhaçada nascida nos Açores, por vergonha nossa, dele, que ciceroneou o enigmático encontro no papel de palhaço pobre. Mas sem brilho. Tão sem brilho, e tão subserviente, que logo o convidaram para a tal presidência da comissão europeia! E palhaços são os outros? Diria o Sargentão. Provavelmente também os haverá.
Devemos entender que o “auto proclamado estado islâmico” não nasceu por partenogénese, teve pai e mãe: mãe terá sido a Al Quaeda, mas pai, ou pai e avô foram os dois Buchs. Não são perdoáveis os crimes que o estado islâmico tem cometido, de lesa humanidade e de lesa cultura. Contudo, quando Afonso Henriques se proclamou rei de Portugal, Afonso VI de Castela tinha todo o direito de contestar “o auto proclamado reino de Portugal”. Há paralelismos históricos que convém não esquecer.
A evolução da humanidade já devia ter eliminado a possibilidade de acontecerem fenómenos semelhantes. O estado islâmico está a destruir, em Palmira, património da Humanidade. O exército do EUA não destruiu, em Bagdade, património da humanidade? Podemos, de ânimo leve, classificar de selvagem o estado islâmico? Isto sem querer analisar, mais profundamente, as razões e responsabilidades do assacado “atraso” civilizacional de que apodamos os povos desses países.
A Europa está a braços com um problema humanitário terrível, tão terrível que o ex primeiro-ministro incompleto e o mais que imperfeito ex presidente da Comissão Europeia julga que lava as mãos ao chamar palhaços aos políticos ainda no activo.
Eu não sei a solução para tão grave crise de migração. Ninguém, provavelmente, saberá qual a solução. Considero, contudo, que o remédio não está na Europa, ou só na Europa: está no continente a sul do Mediterrâneo e reside, fundamentalmente, na reformulação das relações impróprias que sempre houve entre as culturas deles e a chamada ocidental, com esta permanentemente a pretender impor-se àquelas.
Quantas vezes sem respeito pelo direito à diferença.