É verdade que nunca fui a Paris. É provável que jamais vá a Paris. Porém, Paris veio muitas vezes até mim: Um americano em Paris, a última vez que vi Paris, etc., etc. Até Paris já está a arder. Dessa vez com Hitler ansioso, inquirindo-o, exigindo-o ao telefone aos seus generais na Capital de França. Porém, do outro lado do fio já ninguém responde: Paris acabara de ser libertada.

Agora Paris voltou a arder, não pela loucura de um homem, mas por alegada razão divina. Outra vez o nome de deus utilizado em vão. Mais do que em vão: em crime. De tal modo que Paris, agora, pode ser em qualquer lado. Pode ser a nossa cidade, a nossa rua, a nossa casa. Pode atingir qualquer um, em qualquer situação: no labor ou no lazer. No repouso ou na viagem. Na explosão duma bomba cobarde ou na ousadia inacreditável dum ataque de rosto aberto. Louco. A drogada promessa dum paraíso depois de…

No entanto, quando durante séculos, os fiéis do mesmo Deus e em seu nome, governaram o Andaluz, fizeram-no com tolerância para com os que se diziam crentes de outro Deus, mas considerados apenas fiéis imperfeitos, porque, acreditavam, deus é único. Consideremos eles e nós para facilitar o raciocínio. Eles acreditavam, não sei se ainda acreditam, que deus é um, com fiéis perfeitos, eles, e fiéis imperfeitos, nós. Por isso toleráveis.

Do lado de cá, nós, embora confessando também que deus é um, alguma vez usámos da mesma tolerância para com eles? Pode estar aqui a divergência que, num extremismo para nós incompreensível, intolerável e ilógico, oriente os dirigentes dos “eles” de hoje, convencendo-os a deixarem-se até morrer, desde que arrastem consigo muitos fiéis, já não apenas imperfeitos, mas infiéis de facto. Arrastem consigo, mas não para o mesmo lugar: eles para o prometido paraíso, os infiéis, nós portanto, para o inferno garantido.

Não se trata somente, então, de retaliar ataques: pode tratar-se de algo bem mais hediondo, pagar um lugar no paraíso com o maior número possível de lugares no inferno. Surpreende, ou deve surpreender, a facilidade com que os “eles” de hoje, dito assim por irreconciliável divergência com os eles de antanho, recrutam militantes sem ligação aparente ao mesmo credo. E desta facilidade resulta maior intranquilidade para qualquer cidadão em qualquer parte, criando, ou podendo criar, toda a espécie de receios e temores. A consequência imediata pode travar o necessário apoio aos refugiados que das suas terras fogem, não por serem como nós, mas por se manterem fiéis à definição antiga de perfeitos e imperfeitos. Há o receio aceitável de que possam penetrar nos nossos reinos, infiltrados na multidão, os temidos suicidas assassinos. Ou poder ser tão débil a fronteira entre não o serem ainda e o virem a sê-lo, que possam transformar-se demasiado breve.

Por isso Paris, onde nunca fui, e aonde não prevejo ir, mas pelo qual estou emocionalmente ferido, está aí, ao meu alcance, ou alcançando-nos a todos, trazido pelos “eles” de hoje, então potenciais alvos feridos não apenas de emoção, mas de realidade.


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