Acabo de regressar de mais um dos encontros de família, que acontecem desde 1991, portanto com 23 anos de longevidade, e são a sequência das reuniões de Passagem de Ano e Páscoa com mais duas décadas e uns pós, o que se traduz em mais de 43 anos de encontros de irmãos, actualmente com a 4ª geração quase a caminho.

A história desses vetustos encontros carrega memórias de muitas discussões, acaloradas e vivas, por vezes vivas demais, principalmente entre os agora septuagenários da primeira geração. Porém, nos últimos encontros, mercê da idade que adoça arestas e dilui as divergências, as discussões derivaram para conversa e os assomos de violência verbal para lamentações, por vezes bem-humoradas, sobre os mesmos assuntos que, no passado recente, acendia os altifalantes da garganta. Ou terá sido o “comportamento” mais recente de outras famílias, não de sangue mas políticas e económicas, que fez o milagre da concórdia entre os aguerridos opositores verbais, atirando todos para o mesmo lado das barricadas? O mais certo será admitir que os dois factores e conjugaram na “amenização” das batalhas orais.
Das três gerações em convívio, os já menos da primeira, que há 45 anos enfrentavam a vida confiantes, agora aposentados ou reformados, temem a incerteza do que lhes resta de futuro. Os da segunda geração, que há vinte anos iniciaram carreiras promissoras ou pelo menos risonhas, tremem pela insegurança, desistem do que começaram, e recomeçam noutras áreas de sucesso duvidoso. Da terceira geração os ainda crianças brincam, já os jovens e adolescentes sabem que não vai ser tão fácil quanto foi para avós e pais alcançar um patamar de suficiente ou mínima estabilidade.
Correm algumas notícias alarmantes. A possibilidade de extinção do curso de arquitectura da Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto. A dispensa colectiva de sessenta colaboradores dos dois mais prestigiados gabinetes da mesma actividade, por sinal os gabinetes dos dois mais internacionais arquitectos portugueses. E a tua licenciatura? Está em”stand bay”, ando por aí a tocar nas ruas e em bares. Qualquer dia… Tenho que ir roubar. Mas tem cuidado, rapaz, onde irias pescar os três milhões para a caução? Parece que no Dubay requerem enfermeiros e radiologistas. Eu até voltaria para o Brasil, mas fui assaltado, quando lá estive, e tomei medo. Desta vez vieste “solteira”? Teve de ser. Apareceu-lhe agora algum trabalho, o que já não acontecia há meses, houve que aproveitar. Lá também está assim? Então, também somos dos “PIGS”, ou seja da Europa-sul. Belo fato, rapaz! Pois é, tio, mas já não é fato de engenheiro, é de instrutor de escola de condução. Eram assim as variantes necessárias e obrigatórias.
É então que os lamentos dos mais velhos concordam em uníssono, saudosos da discordância aguerrida do após revolução de Abril. A discordância de antanho prometia vida, competição, alegria e esperança. Se nem todos concordavam com o trilho a percorrer, todos sentiram a melhoria do processo em curso. Até que a derrapagem, descarrilamento ou a aplicação de travões indevidos, os transporta a esta doentia coincidência de opinião, encerrados na mesma carruagem e às escuras.
As crianças brincam na sua inocência. Os jovens, porque o são, espalham a alegria e a vivacidade do sangue novo. Os anciães sorriem, revêm-se naquela descendência, entre todos são mais de sessenta, e lá por dentro, ainda que não o digam abertamente, desejam transmitir-lhes o ânimo que há 40 anos os entusiasmou e os possa estimular a nova e mais duradoura revolução. Quiçá num rumo diferente, desde que seja, se possível, melhor e mais justo.
E se pudessem ainda viver esse dia, mais tranquila seria a despedida.


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